Uma Nova Vida para o Leça
Ideia, orçada em 1,5 milhões de euros, envolve criação de parque de lazer e espaços desportivos
José Carlos Gomes
A candidata do PS à presidência da Câmara de Valongo, Maria José Azevedo, apresentou ontem o seu projecto de despoluição do rio Leça e de requalificação das margens. O local escolhido para dar a conhecer as ideias aos jornalistas não podia ser mais simbólico: um caminho junto ao rio onde o cheiro do curso de água é nauseabundo, apesar de estar a poucos metros da Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) de Ermesinde.
O projecto da socialista está orçado em 1,5 milhões de euros e contempla a limpeza da água e a criação de infra-estruturas nas margens, englobando a criação de um parque de lazer. Maria José Azevedo quer a construção de um passadiço de madeira, para caminhadas e passeios de bicicleta, ao lado do Leça em todos os locais em que tal seja exequível, ao longo dos oito quilómetros de passagem do rio pelas freguesias valonguenses de Alfena e de Ermesinde.
O estudo preliminar gizado tecnicamente pelo arquitecto Virgínio Moutinho prevê a criação de um parque de lazer, com equipamentos desportivos e infantis perto da antiga Resineira, na Travagem, Ermesinde. Trata-se de uma intervenção em 23 hectares, numa extensão de 900 metros de rio.
A socialista tem intenção de recuperar um moinho abandonado e parcialmente destruído para ali instalar um museu dedicado ao ciclo do pão, actividade tradicional de Ermesinde e de Valongo. Para apoio a essa infra-estrutura, está projectado um parque de estacionamento a instalar na rua da Resineira.
A candidata espera obter financiamento para a empreitada no próximo Quadro Comunitário de Apoio e através da Lipor, entidade que se comprometeu com a Câmara de Valongo, em 1999, a fazer a limpeza do rio e a requalificação das margens.
Lembrando que a Lipor nada fez, seis anos passados desde a assinatura do protocolo, Maria José Azevedo recordou ainda que, à data do estabelecimento do acordo, o presidente da Câmara de Valongo, Fernando Melo, era também o responsável máximo pela Lipor. Para o futuro, a candidata foi peremptória: "Comigo os contratos são para ser cumpridos".
Os socialistas querem que o rio Leça volte a ser apetecível, como aconteceu há dezenas de anos, altura em que as suas águas serviam de piscina de competição ao Clube de Propaganda da Natação. O projecto ontem revelado visa ainda criar condições para a prática de pesca, assim como, em alguns troços, para a canoagem recreativa.
A exequibilidade do plano de Maria José Azevedo está dependente de dois factores. Por um lado, grande parte dos terrenos onde quer intervir são privados, pelo que terá de haver negociações. Por outro lado, é preciso que a revisão do Plano Director Municipal (PDM) deixe de permitir a construção "intensiva até ao rio na margem esquerda, o que é um erro crasso devido às cheias", afirmou o arquitecto Virgínio Moutinho.
Maria José Azevedo contestou o arrastamento da revisão do PDM, que se prolonga há cinco anos, apesar de a Câmara de Valongo ter anunciado que o resultado das alterações seria publicado em Diário da República em 2003. A candidata explicou a não conclusão da revisão com a possibilidade que isso dá de "recorrer às normas provisórias, que permitem o uso discricionário do território".
Despoluição garantida a montante
A cerimónia de apresentação do projecto contou com a presença de vários notáveis socialistas, entre os quais se destacavam Elisa Ferreira, ex-ministra do Ambiente, e o ex-secretário de Estado do mesmo sector, Ricardo Magalhães, o vereador portuense Orlando Gaspar e o ex-vereador Hernâni Gonçalves, a atleta Rosa Mota e o presidente da Câmara de Santo Tirso, Castro Fernandes.
Foi do autarca tirsense que partiu a primeira novidade do agrado de Maria José Azevedo. Castro Fernandes revelou que a empresa multimunicipal "Águas do Ave" incluiu a despoluição dos 11 quilómetros do rio Leça em Santo Tirso no plano de recuperação do rio Ave. O edil adiantou ainda que já foram lançados concursos para a construção de um interceptor que deve acompanhar paralelamente o Leça desde a nascente, no monte Córdova, até Água Longa.
Nesta freguesia, que faz fronteira com Alfena, será construída uma ETAR, cuja execução também já foi posta a concurso. Espera-se que o rio Leça passe a entrar limpo em Valongo, cabendo então a este concelho a despoluição no seu território, para que o curso de água possa seguir saudável até à Maia, antes de desaguar em Matosinhos. Para isso será necessário intervir no afluente Balsinha.
Jornal "O Comércio do Porto" 19-07-05
Edição Digital núm. 413


